Produção dos anos sessenta é, provavelmente, uma das melhores séries de ficção de todos os tempos
Star Trek sempre foi visto como um universo clássico, mas sempre relacionado a um público nerd muito específico e, entre o público geral, como algo à sombra de Star Wars. O que é compreensível já que, sem as tramas grandiosas e familiares, sabres de luz e criaturas tão carismáticas como no universo de George Lucas, Star Trek pode acabar sendo algo que nunca será consumido exceto em casos de uma curiosidade específica. Mas coitada da alma que nunca assistiu Jornada nas Estrelas…
Esqueça roteiro de ficção raso e voltado apenas a entretenimento. Cada episódio da série clássica de Star Trek apresenta um dilema aparentemente intransponível, muito relacionado a conceitos complexos do comportamento humano. Tudo isso envolto por uma atmosfera si-fi muito divertida, interessante e além do próprio período.
É realmente prazeroso quando todos os níveis aos quais uma história toca, se interligam para formar o todo. E ninguém melhor do que Jornada nas Estrelas para conseguir isso. Desde a abertura, nós já somos transportados para um futuro em que a humanidade explora os recônditos do universo. E que o foco é na tripulação de uma das naves que está compelida desta missão.
O roteiro é funcional tanto nos acontecimentos como nos diálogos. Se algo do background dos funcionários, seja entre os protagonistas ou coadjuvantes, tiver que ser apresentado, não será feito atoa. Ali existe algo que tem serventia à trama, em maior ou menor grau. Seja no episódio, temporada ou série como um todo.
A problemática, sempre proveniente de uma áurea de mistério episódico quase que como se fosse uma história de suspense, praticamente sempre é oriunda de algo científico – quase mágico – e que colocará os heróis da história em um conflito não só físico mas principalmente moral. E que cuja solução envolverá alguma forma de sacrifício. De forma a utilizar não somente as habilidades como a personalidade das personagens.
E, muito diferente de vários programas atuais, a história leva o tempo que tem que levar. Somos levados de um lado para o outro enquanto a urgência cresce e todas as possibilidades de resolução vão se minguando.
O êxito é logrado em todos os âmbitos. A ficção científica é convidativa e intrínseca à intenção do que é mostrado. As problemáticas conseguem ser práticas e conceituais, enquanto nos perguntamos o que faríamos naquelas situações. Os personagens somente agem de acordo com a lógica interna de universo e deles próprios, o que tende a ser um limitador que diminui as chances de deus ex-machina.
E todos esses recursos combinados, numa trama que se compromete a explorar todas as possibilidades infinitas do universo, é no mínimo, motivador para ser assistido. Particularmente, apesar de não ter conceitos tão marcantes e convidativos como Star Wars, Star Trek é um programa de qualidade bem maior do que Star Wars. Porém, infelizmente, as séries e filmes recentes tentaram ser mais leves e menos ambiciosos, se concentrando mais no entretenimento fácil.
Em época atual de busca desenfreada por dopamina fácil, Jornada nas Estrelas serve como uma antítese deste tema. Todas as abordagens lógicas da problemática são exploradas e, ao fim de cada episódio, ficamos realmente satisfeitos com o que testemunhamos, embora, muitas vezes com questionamentos que podem perdurar por muito tempo na nossa cabeça.
