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Crítica: O Pai, a peça

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De maneira sagaz, a peça “O Pai” parece escancarar nossos pensamentos mais íntimos: o medo do futuro, da velhice, do que nossa mente é capaz. Como seremos quando tivermos 80 anos? Teremos que ter ajuda constante? E se começarmos a...

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De maneira sagaz, a peça “O Pai” parece escancarar nossos pensamentos mais íntimos: o medo do futuro, da velhice, do que nossa mente é capaz. Como seremos quando tivermos 80 anos? Teremos que ter ajuda constante? E se começarmos a esquecer as coisas? Mas também traz a rotina de muitos lares. Nossos pais e avós esmaecendo. O que nos lembra da nossa própria pequenez.

André, interpretado por Fulvio Stefanini, é um engenheiro de 80 anos que agora vive sob os cuidados da filha. Bem humorado e teimoso, já colocou muitas enfermeiras porta afora. Faz jus às manias típicas da idade e às brigas em torno da sua suposta falta de autonomia. A filha vive o dilema entre responsabilizar-se e viver a própria vida, deixando o pai aos cuidados de profissionais. A leveza dos diálogos é importante para encarar o desgaste de quem vive por perto e do próprio indivíduo confuso com a demência.

O pai adora relógios e tem um de pulso como seu favorito, mas sequer lembra onde o coloca. Ele pergunta pelas horas constantemente. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. O ponteiro do relógio anda e as luzes do palco se apagam em diversos momentos. Os personagens mudam de lugar e os objetos vão sumindo. É o tempo que também está passando na memória do André, que uma hora resgata a saudade da outra filha, a convivência com o genro, o jantar em família, as conversas com os moradores da casa. Os buracos na memória estão ali: nas mudanças drásticas das cenas e do humor dos personagens; da repetição do dia, nos apagões. O pai já não consegue estabelecer o que é o dia e a noite. E o público também não. Em um dos poucos momentos de consciência, André se compara a uma árvore “Sinto como se eu estivesse perdendo todas as minhas folhas, uma após a outra.”

“O Pai” estreou nova temporada nesse fim de semana em São Paulo com apresentação lotada e vai até 31/8. E para comemorar 70 anos de carreira, Fulvio tem um bom time ao seu lado, dirigidos pelo filho de Fulvio, Leo Stefanini. “O Pai”  teve sua primeira montagem no Brasil em 2016. A peça já foi adaptada para o cinema pelo próprio autor, Florian Zeller, em 2020, com o título de “Meu pai”, interpretado por Anthony Hopkins e Olivia Colman que concorreu a 6 categorias do Oscar em 2021.

Créditos da foto: divulgação

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Flávia Piauí
Sobre o autor Flávia Piauí

A imaginação e a esperança me mantêm viva. E através de uma tela eu aprendi a sonhar. Mas nem tudo cabe em uma imagem. Às vezes faltam palavras, falta uma legenda. Instagram: fasuez

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