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CRÍTICA: Festa no Céu (2014)

Cena da animação Festa no Céu com Maria e Manolo.

A animação Festa no Céu aborda com sutileza questões enraizadas na cultura familiar latino americana enquanto diverte com trilha sonora animada e cores vibrantes. Sinopse: A história através da metalinguagem Logo no início, um grupo de crianças desajustadas recebe um...

Sumário

A animação Festa no Céu aborda com sutileza questões enraizadas na cultura familiar latino americana enquanto diverte com trilha sonora animada e cores vibrantes.

Sinopse: A história através da metalinguagem

Logo no início, um grupo de crianças desajustadas recebe um convite inusitado durante visita a museu. Enquanto a simpática guia mostra o livro da vida para eles, o longa nos apresenta sua história principal. O filme nos leva a alguns fatos cruciais; primeiro: o México é o centro do universo. E a cidade de San Angel fica no centro do universo, onde vivem Maria, Manolo e Joaquin, amigos de infância.

Manolo é doce e gentil, enquanto Joaquin acredita na força bruta como chave para o sucesso. E os melhores amigos se apaixonam pela mesma garota: Maria.

Com o passar dos anos, os três vivem vidas completamente diferentes, mas quando Maria retorna da Europa, antigos sentimentos entram à prova e descobrimos a verdade cristalina: nada mudou.

“Legado familiar” × Quem somos. O quanto vale abdicar de si mesmo?

A questão não atravessa um, mas os três protagonistas. Joaquin, por exemplo, é órfão do Capitão Mondragon, conhecido como herói local, e para ele não há outro caminho além de honrar os feitos do pai. Já Maria retrata a figura feminina de espírito livre, que não aceita viver sob o que é dito como certo ou errado, enquanto Manolo, descendente de uma família de toureiros tem mesmo o sonho de ser músico. Cada personagem lida com a pressão de uma maneira.

Onde os enredos se encontram

Toas as trajetórias deságuam em um ponto em comum: A aceitação. Todos em determinado ponto decidem acatar as expectativas impostas a eles, quase como missão divina. E não há nada mais latino americano do que isso.

Culturalmente falando, sentimos que ao nascer já ficamos em débito e devemos orgulhar quem nos colocou no mundo, dar continuidade a linhagem da nossa família e não quebrar suas expectativas. Trata-se de respeito. Ou é isso que aprendemos a acreditar.

Romper é saudável

Podemos — e devemos — desbravar caminhos diferentes daqueles que foram idealizados para nós se isso significa escutar nossas convicções e vontades. Não é desrespeito, é independência, e muitas vezes é também a ruptura de um ciclo vicioso e geracional.

No caso de Manolo, ele jamais mataria um touro, mesmo que o próprio pai o renegasse por isso.

Porém, às vezes vamos levar mais tempo para tomar coragem de seguir o nosso rumo, como Maria, que passou a adolescência em um convento porque era o que seu pai desejava — no entanto, ao invés de uma versão amaciada e polida da própria filha, ele reencontrou agora adulta uma Maria ainda mais segura de si.

San Angel vê Joaquin como nada mais que o reflexo de seu pai. Ele só tem valor enquanto corresponde ao que esperam dele. Seguir um legado pode gerar orgulho, mas com a mesma facilidade tem o poder de ser uma prisão que te sufoca sem pedir passagem, assim como é com Joaquin, que por mais da metade do filme não consegue reconhecer que é um cativo, preso no limbo de suas expectativas e daqueles ao seu redor.

Para todos os clichês que já amei

Festa no Céu transita entre sua originalidade e o feito de homenagear a indústria do entretenimento; Maria e Manolo atuam como Romeu e Julieta mexicanos ao som de Elvis Presley.

À primeira vista, pode parecer uma salada de frutas cinematográfica; ainda assim, funciona.

Além da icônica Can’t Help Falling in Love, outros hits conhecidos pelo grande público marcam presença no longa, como Creep do Radiohead. As canções originais não ficam para trás, repletas de carga emocional e lindas melodias.

Manolo e Joaquin são outro exemplo de clichê bem servido. Quantas vezes ao assistir um filme não nos vemos divididos entre o galã bonzinho e o bad boy descolado? Mas surpreendentemente, até o batido triângulo amoroso aparece aqui com inteligência e alavanca o desenvolvimento dos envolvidos.

Maria por sua vez tem seu momento de donzela indefesa ao ser capturada por Chacal, vilão conhecido por dizimar cidades inteiras, mas o filme não se escora nisso para diminuir a potência da personagem — a garota debocha de quão “típica” é a artimanha e logo o vilão acaba subjugado.

O filme reaproveita enredos e artifícios narrativos populares e lhes dá nova roupagem.

Final feliz

O terceiro ato do filme cristaliza lindamente o desenvolvimento dos núcleos familiares e fraternos; as resoluções vêm através de pedidos de desculpas, abraços calorosos e uma certeza: Somos nossos próprios indivíduos e não há nada melhor que isso.

Resumindo

História amarradinha, sem pontas soltas, perfeita para entreter todas as idades e para atravessar os mais velhos com reflexões mais profundas do que aparentam sobre família, amor e amizade.

Ah, lembra da guia simpática do museu? Era a própria La Muerte, e mostra às crianças — à la Losers Club de Stephen King — que qualquer um consegue escrever a própria história. É, até eu e você!

Pra mim, Festa no Céu é um delicioso 10/10.

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Helena Merencio
Sobre o autor Helena Merencio

Estudante de jornalismo, corinthiana em tempo integral, atriz. Um pouco do que eu faço pra dizer um pouco de quem eu sou. O interesse pelo mundo POP está no sangue e nada melhor do que compartilhar isso com vocês!

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