O livro Solitária, com autoria de Eliana Alves Cruz, publicado no ano de dois mil e vinte e dois, demarca a invisibilidade do abismo em que muitas mulheres pretas e detentoras de uma baixa renda são lançadas, ao conseguirem emprego em domicílios. Como Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, ou o tema do Exame Nacional do Ensino Médio, do ano de dois mil e vinte e três (“Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”), essa é uma tessitura que dá voz a mulheres tão menosprezadas pela sociedade em que vivem. É uma narrativa de mulheres que necessitam ser valorizadas e acolhidas em um mundo que só as violentam.
Tal obra conta a história de Eunice e Mabel, duas mulheres pretas que moram no trabalho. Um fator que aponta tamanho abuso empregatício, são as horas que passam no serviço, que vão além de uma jornada de trabalho, se tornando extremamente exaustivas. No entanto, os indivíduos que as empregam dizem que elas são parte da própria família, mas dormem enquanto elas limpam e organizam tudo. No fim das contas, eles são um “povo que nunca limpou a própria privada!”, como Mabel (filha de Eunice) diz logo no início do texto de Eliana. Além disso, ainda desacreditam no progresso delas ou de seus descendentes, como Tiago (patrão de Eunice) desacreditou que Mabel seria médica e acabaria por garantir um futuro mais libertador para a mãe.
Na telenovela brasileira “Amor de mãe”, exibida pela Rede Globo, em dois mil e dezenove, o personagem Álvaro, interpretado pelo ator Irandhir Santos, disse à Lurdes, a babá de seu filho, interpretada pela atriz Regina Casé, que não iria acontecer nada com ele, caso descobrissem um erro que a mulher cometeu para desvendar atitudes criminosas praticadas pelo empregador. Demonstrando assim, que como patrão extremamente rico e detentor de um enorme poder, era muito mais fácil que acontecesse algo ruim com ela do que com ele. Saindo da ficção, ainda é perceptível que essa hierarquia, desigualdade social, exploração e humilhação, são somente um pouco da realidade cotidiana dentro de muitas áreas de uma casa.
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Outras obras, como a telenovela “Cheias de Charme” ou o filme “Que horas ela volta?”, criam arte em cima do espaço de trabalho altamente desumano e solitário dessas figuras femininas, trazendo mais visibilidade e voz para elas. Assim como as mulheres dessas produções artísticas e Eunice, que precisam se submeter a condições análogas à escravidão, todos os dias, muitas outras ainda necessitam passar por essa situação para garantir uma comida no prato, ou até mesmo, um futuro melhor para seu filho (a).
“…Eu e mamãe continuávamos ali, na gaiola dourada do edifício Golden Plate. Éramos pássaros dentro de um viveiro luxuoso, mas uma jaula não deixa de ser vilã da liberdade só porque é pintada de dourado?” (CRUZ), nesse trecho, a filha de Eunice relata que o local de emprego da mãe, apesar de não ter cela, era uma verdadeira prisão. Em suma, o quartinho de todas essas mulheres que trabalham em ambientes domésticos, a portinha separada das de outras pessoas, o elevador isolado e as horas que passam em pé trabalhando, são sempre solitárias.
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