O poema “Brinquedos”, de Adília Lopes, publicado no livro Manhã, em 2015, reúne lembranças de sua infância, como o dia a dia e os objetos domésticos. Essas lembranças da poetisa não são discorridas em longos relatos sobre momentos importantes que viveu, mas instantes que ficaram presos em sua memória e ecoaram na sua persona escritora.

Uma possível fonte de inspiração para Adília, no poema “Brinquedos”, é a narrativa fantástica A noz de ouro, de Catherine Campos, que discorre sobre aventuras vividas pelo personagem Jack Brenin a partir do momento que encontra um objeto encantado caído no chão. No poema, o eu lírico conta que também brincou com brinquedos que eram de sua mãe e que ainda os têm guardados e conservados.
BRINQUEDOS
Cristina Campos conta em A noz de ouro que
brincou em criança com brinquedos de primas
velhas. Eu brinquei com os brinquedos de minha
mãe, brinquedos dos anos 20-30, a minha mãe
nasceu em 1927. Ainda tenho esses brinquedos.
São sagrados. Nunca estraguei brinquedos. Vivi
sempre em vários tempos.
A poetisa explora o universo infantil a partir de uma memória hipotética que exprime valores afetivos, construindo uma subjetividade no lírico, já que ela utiliza pronome e verbos na primeira pessoa. Mas será que é realmente algo que foi vivido ou apenas algo que parece ter sido vivido?
O poema ainda traz o hibridismo exercido pela autora em suas obras, entre a alta cultura e a cultura de massa, fundindo as duas sem hierarquizá-las. Para Adília, as duas culturas podem ser usadas como objeto de inspiração.
O livro Manhã é uma metáfora sobre os primeiros vinte anos vividos pela ironista, com o objetivo de resgatar momentos que não foram devidamente aproveitados e dar a eles uma nova história de poesia e vida. Apesar de não seguir as experiências de forma cronológica, as várias temporalidades aproveitadas pela autora trabalham ao seu favor, criando uma subjetividade a partir da brincadeira: “Vivi sempre em vários tempos”. A autora vive, simultaneamente, o presente, o seu passado- no qual ela está brincando com as bonecas da mãe- e o passado de sua mãe- que brincou com aquelas bonecas nos anos de 1920 a 1930. Ademais, ela emprega outros discursos que não fazem parte do universo da lírica, como fotografias da infância da autora, recurso próprio do gênero autobiografia.
A subjetividade do poema, criada pela lembrança da brincadeira com os brinquedos da mãe, pode ser comparada a subjetividade de Quebra Nozes, de E.T.A. Hoffman, em que a personagem principal, Marie, ganha um quebra-nozes de presente de natal e vive diversas aventuras mágicas com ele, como Campos e o eu lírico brincaram em suas obras.
Porém, a experiência apresentada por Adília Lopes é, de fato, uma lembrança de sua infância?
A conclusão é de que o narrador do poema é um narrador heterodiegético, o narrador que conta a história, mas não participa dela, já que a poesia é uma experiência que não fala sobre a vida do poeta e sim é criada para cada situação e cada necessidade poética, sem sentimentos ou emoções.
Dessa forma, o poema de Adília apresenta uma infância que não foi vivida pela autora, mas vivida pelas palavras e exprimindo emoções por elas, sendo essa linguagem criada para aquela memória, ainda que o material usado para a sua produção não sejam sentimentos ou emoções, mas apenas palavras.
Você já conhecia essa poetisa portuguesa e as obras delas? Me conta nos comentários!!
