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Por que Quebrando Regras é um dos filmes mais subestimados de todos os tempos?

Drama de ação poderia ser um marco na história do cinema se tivesse sido feito antes O ano é 2012 e este que vos fala encontra na Internet edições com cenas de um filme de MMA com músicas do Linkin...

Sumário

Drama de ação poderia ser um marco na história do cinema se tivesse sido feito antes

O ano é 2012 e este que vos fala encontra na Internet edições com cenas de um filme de MMA com músicas do Linkin Park. Então decide assisti-lo e, o que encontra, marca sua vida para sempre. 

Quebrando Regras (um título traduzido de “Never Back Down” que, diferente do original, não faz jus à história) é um filme de 2008 dirigido por Jeff Wadlow e escrito por Chris Hauty. E é uma produção com muita vibe dos anos dois mil.

Atores mais velhos interpretando personagens do ensino médio, adolescentes se divertindo no verão e carros bonitos para todo lado. Quebrando Regras poderia facilmente ser apenas um filme esquecível entre tantos deste tipo. Mas apesar do empratamento ser bem simples, o conteúdo servido é bem mais do que parece ser. 

Certa vez assisti à uma crítica deste filme que disse algo como: “É difícil se conectar com os dramas dos personagens quando eles são bonitos, ricos e de barriga tanquinho”. Eu não poderia discordar mais. Tais características envolvem realmente a maioria dos personagens, mas não os define. 

Na história, Jake Tyler (Sean Faris) é um garoto que ficou revoltado com a vida após a morte do pai. Ele se muda para Orlando com a mãe Margot Tyler (Leslie Hope) e o irmão Charlie Tyler (Wyatt Smith) quando o irmão recebe uma bolsa de estudos para treinar tênis. 

A família Tyler é consideravelmente mais pobre do que as famílias do colégio de Jake e, dado o seu histórico de brigas, ele decide se isolar. Porém, quando vê um aluno chamado Max Cooperman (Evan Peters) tomando uma surra no que era para ser apenas um suposto treino às escondidas na escola, Jake decide intervir e acerta um soco no oponente de Max. Mas este rejeita a ajuda, falando que ali era um ambiente controlado.

Mas o golpe dado por Jake chama a atenção do líder do grupo que estava fazendo o “treino”, Ryan McCarthy (Cam Gigandet). E eles acham Jake na internet batendo em um adversário durante um jogo de futebol americano. Ryan decide armar uma arapuca para Jake, com o intuito de testá-lo para ver se ele é realmente bom de luta e que não é uma ameaça para o seu “reinado” de melhor lutador da escola. 

Para servir como isca da armadilha, Ryan faz sua namorada Baja Miller (Amber Heard) se aproximar de Jake e convidá-lo para uma festa em sua casa. Encantado com a linda garota aparentemente dando mole para ele, Jake vai à festa.

No evento, a lá estilo American Pie (como o próprio filme assume), com muita bebida e dança,  rola também um clube de lutas ilegal e sem regras (daí a forçada de barra do título escolhido no Brasil). Ryan desafia Jake para lutar, mas este nega, já que queria ficar longe de confusão. Mas Ryan pega pesado e fala do pai de Jake, culpando-o por sua morte. Afinal, seu pai morrera em um acidente de carro em que ele dirigia embriagado e Jake não pegara o volante em seu lugar. Esse evento é bem importante lá na frente. 

Irritado, Jake aceita lutar. Mas é rapidamente vencido e humilhado, já que seu pai o ensinara boxe e o estilo de luta ali era MMA. Machucado e humilhado, Jake é apresentado por Max à academia de luta em que ele treina: Ginásio 365. O dono e treinador é Jean Roqua (Dijimon Hounsou), um lutador veterano que tem uma regra máxima em sua academia: é proibido utilizar o que se aprende dentro da academia, fora dela. Independentemente do contexto. 

Jean é um homem solitário que usa as artesmarciais para lidar com seus demônios internos. E é desta forma que ele quer que seus alunos usem as artes-marciais, deixando de lado a defesapessoal. Isso é inspirado pelo fato de que, no passado, seu irmão – que era um lutador melhor do que ele – foi desafiado por um cara a brigar no bar em que estavam. Seu irmão aceitou a briga e bateu no adversário que, logo depois, voltou armado e se vingou, tirando sua vida.  Seu pai o culpou e disse que nunca mais gostaria de vê-lo. 

Problemas familiares são basicamente o motor que motiva todos os personagens centrais da história. Após a morte do pai de Jake, sua família se distanciou muito. Baja tinha dificuldades para fazer novas amizades, já que sua família sempre se mudava, Ryan era humilhado por seu pai na frente dos amigos e Max era rico, mas sua família parecia nem ligar para ele. 

Jake decide se dedicar aos treinos e utilizá-los para lidar com a raiva. E tem que superar algumas questões, como confiar em seu mestre, saber separar o que é orgulho do que é persistência ao enfrentar colegas de academia e evitar brigas desnecessárias no dia-a-dia. 

Baja decide terminar com Ryan após ver como ele foi sádico ao humilhar Jake e decide se aproximar deste, mas este nega, já que ela fora parcialmente responsável pelo que ocorreu no dia da festa. Mas ela o lembra que ele queria a luta, apenas não gostaria de perder. 

Enquanto continua a ser desafiado por Ryan e vê sua família se desconectando cada vez mais, Jake acaba entrando em uma briga na rua contra três caras ao mesmo tempo e utiliza seus novos movimentos adquiridos na academia. O vídeo da briga viraliza e Jake começa a ter fama tanto quanto Ryan, que o desafia para um torneio para ver quem é melhor, só para ter a oportunidade de humilhá-lo em público novamente. 

Porém, Jake não consegue esconder de Jean as marcas de suas mãos e, ao constatar que seu aluno brigou, decide expulsá-lo da academia. Frustrado, Jake espera junto a Max o momento em que Jean saia da academia (o que não é fácil já que o nome da academia é Ginásio 365 porque o proprietário, residente e treinador quase nunca sai de lá) e, em um mercado, Jake tem uma conversa sincera com ele.

Diz que começou a treinar para se defender de alguém que tinha aparentemente uma vida bem melhor que a dele e que insistia em bater nele. E que o único momento em que ele não estava sentindo raiva, era treinando na academia.

Jean aceita ter Jake de volta e então começa a principal sequência de treinamento do filme. A mais agradável e inspiradora de ver. É a minha parte favorita, e tudo embalado ao som de False Pretense da banda The Red Jumpsuit Apparatus. 

Treinando como nunca, Jake decide arrumar as coisas em sua vida: se reaproxima de sua mãe, motiva o seu irmão (que se inspira nele), vira amigo de seu treinador e começa a namorar Baja e decide não lutar no torneio ao qual Ryan o desafiou já que ele percebe que não precisa vencê-lo para se sentir realizado.

De posse desta última informação e bravo por perder sua namorada para seu inimigo, Ryan faz uma manobra desesperada para obrigar Jake a participar do torneio: espanca Max até quase matá-lo e o abandona na frente da casa de Jake. 

Jake leva o amigo até o hospital e toma uma decisão: fazer justiça com as próprias mãos, não para fazer o que Ryan quer mas porquê, se não pará-lo, seus próximos alvos podem ser sua namorada, seu irmão ou sua mãe. Jake vai buscar o carro de Max na academia e Jean, que já sabe o que aconteceu, o confronta, dizendo que vingança não resolverá as coisas. E que se ele lutar, não terá uma nova oportunidade de voltar a treinar lá.

Jake responde que não fazer nada também tem consequências. E essa é a grande lição de moral do filme. Você já deve ter ouvido: “queira paz mas prepare-se para a guerra”. Se você não for capaz de defender a si mesmo ou a quem ama porque suprimiu toda a sua capacidade de gerar violência, você é apenas um inútil em potencial. “É melhor ser um guerreiro em um jardim, do que um jardineiro em uma guerra”. Como diz Jordan Peterson: “Um homem inofensivo não é um homem bom. Um homem bom é um homem muito perigoso que tem isso sob controle.” Toda essa temática é usada no roteiro como uma alusão ao Escudo de Aquiles. E não soou como um filme de storytelling pobre querendo parecer mais do que é, mas sim uma produção de roteiro consciente de onde quer chegar. 

Jake diz a Jean que sabe que se ele pudesse voltar no tempo, teria enfrentado o cara que matou seu irmão e que ele deve lutar para reconquistar o pai pois, caso contrário, não haveria chance das coisas mudarem. Assumir a responsabilidade, assim como ele próprio deveria ter feito quando o pai pegara o carro alcoolizado, mesmo Jake estando com o braço machucado. Estas palavras, tão duras quanto verdadeiras, tocam profundamente o treinador, que dá sua benção ao aluno. 

Então, épicamente ao som de Stronger de Kanye West, Jake Tyler se apresenta na competição de luta que fica junto de uma balada. E é aí, entre as várias lutas exibidas, que o filme brilha em coreografia de cena, montagem e direção enquanto as lutas dos competidores ocorrem sempre de formas criativas e caminhando entre o realista e o teoricamente mais ficcional. São sempre golpes que de fato existem, mas que raramente são aplicados tantas vezes e naquelas sequências. (Destaque para a cena em que Ryan derrota com um único golpe um capoeirista e onde os bastidores desta cena ficaram virais no Youtube e todos pensavam ser algo real). 

Ryan, mais preocupado com a exibição para os espectadores do que de fato em vencer, aplica um golpe ilegal e acaba desclassificado. Jake, ao saber disso, desiste do campeonato e vai embora. Ryan o confronta do lado de fora do evento, perguntando porque desistiu. Jake responde que o fez pois veio ali não para a competição, mas sim para derrotar Ryan apenas. E que sabe que Ryan não está interessado em enfrentá-lo ali sem espectadores porque é só o que ele procura. Deixando claro que, por mais que Ryan aparentemente tenha a vida perfeita, ele é vazio.

As palavras de Jake deixam Ryan furioso e os dois se enfrentam. As pessoas do lado de dentro decidem abandonar a luta final da competição para assistir à luta que eles realmente queriam: Jake Tyler VS Ryan McCarthy. Jake está claramente em desvantagem, já que está com as costelas machucadas de uma luta anterior. 

Planos sequência, câmeras lentas ou em primeira pessoa. A luta final tem de tudo, mas sem exageros ou que atrapalhe a fluidez do combate. Já perto de apagar, Jake pensa nas pessoas pelas quais ele está lutando e ainda é arremetido pela lembrança de golpes ensinados pelo seu mestre e, como Jean Roqua o ensinara anteriormente: sempre é possível controlar o resultado, só depende de você. Sempre há uma saída. Jake o se safa, obtendo a vitória. 

Ao fim, temos Jake e seu amigo em um parque e o protagonista é recebido por sua namorada logo após um aceno de cabeça entre herói e vilão, significando que eles alcançaram a paz. 

Apesar da roupagem adolescente, Never Back Down é um filme com – muita – substância mas que, ao mesmo tempo, não tenta inventar a roda ou ser mais dramático do que o seu próprio tom propõe. Numa trama muito parecida com Karate Kid, Quebrando Regras consegue até mesmo superar o seu predecessor com profundidade dramática. Sabemos que, sem Karate Kid, nunca teríamos Never Back Down mas, caso este viesse na época de Karate Kid e Rocky, com certeza seria um marco tanto quanto eles, embora não tivesse as marcas registradas dos anos dois mil, que lhe são características. 

Conforme o tempo passa, Quebrando Regras garante cada vez mais fãs que, assim como eu, desgostam totalmente das continuações trazidas à luz por Michael Jai White que tomou a franquia para si e fazendo de seu personagem quase um super homem na história, o que fez a saga perder toda a profundidade dramática e o cuidado narrativo, virando apenas um filme de luta genérico. Não que seja propriamente ruim, mas que deveria ser uma outra franquia sem conexão ao primeiro filme. 

Na sua primeira continuação, o primeiro filme é apenas mencionado e Max retorna para uma pequena participação especial numa produção que mais parece um rascunho de seu antecessor. O terceiro filme se passa na Tailândia e se distancia ainda mais da produção original, enquanto o quarto – que não ouso assistir – temos o lutador do UFC Michael Bisping atuando como um cara que sequestra mulheres para um torneio feminino ilegal. (?)  Não precisamos saber mais do que isso.

Até hoje fãs do primeiro filme como eu, esperam uma continuação direta deste, ignorando totalmente os demais. Talvez uma produção em que Jake é desta vez treinador e passa a um aluno o que aprendeu. 

Depois de Homem-Aranha 2, Never Back Down (ou Quebrando Regras) é o filme da minha vida. Assisto direto e sempre estou mais inspirado quando o filme acaba. É um filme divertido, agradável, ação e drama na medida certa e que conforme seu sucesso cresce como filme cult, mostra que talvez seja o filme mais subestimado de todos os tempos. Foi com certeza vítima do próprio período em que foi lançado, não sendo valorizado. 

Não fazer nada também tem consequências! 

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Roberto Junior
Sobre o autor Roberto Junior

Escritor, youtuber, crítico de cinema e sei de cor todas as falas da trilogia do Homem-Aranha do Tobey Maguire.

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