História do Som mergulha na dor e na sensibilidade
Entre os lançamentos mais comentados do ano, História do Som chega como um drama intimista estrelado por Paul Mescal e Josh O’Connor. O filme mergulha na depressão, na profundidade emocional de um relacionamento gay e nas marcas deixadas pelo tempo e pela repressão social. Mas será que consegue transformar sua proposta sensível em algo realmente marcante?
Dirigido por Oliver Hermanus, o longa aposta em uma narrativa contemplativa e melancólica, explorando o amor em um período histórico em que ele era proibido e criminalizado.
Sinopse de História do Som
Durante a Primeira Guerra Mundial, dois jovens, Lionel e David, dedicam-se a registrar as vidas, as vozes e a música de seus compatriotas americanos. O projeto, que começa como uma missão cultural e histórica, se transforma em algo muito mais íntimo, à medida que os dois se aproximam emocionalmente.
Amor em tempos de repressão
Oliver Hermanus utiliza o contexto da Primeira Guerra Mundial quando a homossexualidade era considerada crime para construir uma narrativa que atravessa décadas. O prólogo se inicia em 1910 e o epílogo se encerra em 1980, apresentando dois momentos históricos distintos e evidenciando como o tempo molda e muitas vezes endurece as emoções.
Esse recorte temporal é uma das escolhas mais interessantes do filme. Ele não fala apenas de amor, mas de memória, silêncio e perda. A passagem dos anos carrega uma sensação constante de oportunidade desperdiçada e de sentimentos reprimidos.

Paul Mescal e Josh O’Connor em perfeita sintonia
No centro da história está Lionel, interpretado por Paul Mescal. Ele entrega uma atuação imponente e profundamente sensível. Lionel é um homem de presença marcante, mas também de extrema delicadeza emocional. Sua relação com a música é quase espiritual e é através dela que ele se conecta com o mundo e com David.
Josh O’Connor, como David, constrói um personagem mais contido, introspectivo e aparentemente frágil. A química entre os dois atores é inegável. Eles parecem dançar em cena como em um balé silencioso, sempre sincronizados, com olhares e gestos que dizem mais do que qualquer diálogo.
Essa sintonia transforma a relação dos personagens em algo palpável. A conexão não depende apenas de palavras, mas de respirações compartilhadas e silêncios carregados de significado.
A música como elo emocional
Um dos pontos mais fortes de História do Som é a forma como utiliza a música como elemento narrativo. A voz de Lionel não é apenas um detalhe artístico ela é o coração do filme. Sua sensibilidade musical não só atrai David, mas também envolve o espectador.
A trilha sonora cria uma atmosfera quase hipnótica, reforçando o tom contemplativo da obra. É um filme que pede paciência e entrega, funcionando melhor quando o público se permite sentir em vez de apenas acompanhar a trama.

Comparações inevitáveis
Ainda assim, é difícil ignorar a sensação de déjà-vu. A dinâmica da repressão e do amor impossível inevitavelmente lembra Brokeback Mountain e outros dramas LGBTQIA+ centrados na aceitação e na dor do silêncio.
Embora História do Som tenha identidade própria, ele caminha por territórios já explorados. Em alguns momentos, a narrativa parece girar na mesma espiral de tristeza que outros filmes do gênero, sem oferecer grandes rupturas ou novas perspectivas.
Vale a pena assistir História do Som?
No fim, História do Som é um filme belo e sensível, com atuações impecáveis e uma atmosfera melancólica envolvente. Paul Mescal entrega mais uma performance intensa, reafirmando sua força dramática, enquanto Josh O’Connor complementa essa entrega com delicadeza.
No entanto, o longa é profundamente melancólico talvez até demais. Sua insistência na tristeza constante pode afastar parte do público que busca uma evolução emocional mais ampla.
Ainda assim, é um filme que merece reconhecimento. Não por reinventar o gênero, mas por executá-lo com elegância e respeito. História do Som é sobre memória, amor e as cicatrizes deixadas pelo tempo e, mesmo quando dói, há beleza nessa jornada.
