A aposta do Brasil para o Oscar traz a marcante identidade do diretor Kleber Mendonça Filho que leva suas críticas sociais para dentro da tela através do irreverente bom humor brasileiro. O filme apresenta de forma não convencional para o público geral, a história do Brasil, a cultura recifense, o sistema cruel das instituições de poder no país, e a grandeza da permanência da memória de pessoas e lugares.
Armando é um ex-professor universitário que retorna a Recife para ver o filho e fazer descobertas sobre a história da sua família. Ele tem um passado coberto de ameaças e conspiração. Por isso, Marcelo é seu novo codinome, e o mesmo conta com a ajuda de Dona Sebastiana para esconder a identidade original. Uma vila de casas para “refugiados”, como se autodenominam, é sua nova moradia. Estão ali perseguidos pelo governo ou com graves conflitos pessoais. O professor teve uma disputa com uma poderosa figura no passado, após este querer se apropriar de sua invenção na área tecnológica, a qual os militares tinham interesse. A esposa está morta e o filho está, até então, aos cuidados dos avós maternos. A volta para casa pode não ser tão receptiva. Acompanhe o trailer:
O ano é 1977 e, embora a narrativa não tenha como foco os acontecimentos da ditadura militar, a Recife de 77 vive de portas abertas para a conduta desenfreada, violenta e corrupta do regime, incrustada, principalmente, na polícia, na mídia e nas instituições públicas e privadas. Marcelo teme estar sendo perseguido mesmo atuando com um disfarce que o mantém próximo à polícia local, mas que, também, o ajuda a tentar localizar rastros de quem foi a mãe. Um nome e seu próprio nascimento atestam a vida dela. A mãe, assim como a esposa, bem como a sobrinha de Dona Sebastiana são constantemente trazidas à trama para que suas existências sejam lembradas. Mesmo não presentes, se recusam a terem suas recordações apagadas da mente dos seus afetos. Mesmo dolorosas, as marcas do passado também fazem parte de lembranças. Em uma passagem comovente, o ator alemão Udo Kier, com o personagem Hans, um judeu sobrevivente do Holocausto, mostra as cicatrizes em seu corpo. Há um quê de comicidade nisso na visão do trio de policiais corruptos que implora para ver as feridas em seu corpo, pois o mal-interpretam e não sente esse peso da história da humanidade.

De maneira interligada, muitas referências colocadas dentro da história serão revisitadas por parte do público e descobertas pela outra. Na cidade, corre o boato de uma perna cabeluda que ataca as pessoas à noite quando julga estarem sendo inadequadas. Crianças a temem, ao mesmo tempo que causam uma comoção em torno dela. Páginas policiais são dedicadas descrevendo os ataques as suas vítimas. A lenda folclórica da perna cabeluda foi popularizada nos anos 70 pelo jornalista recifense Raimundo Carrero e colegas de equipe; Raimundo era responsável por uma coluna que cobria casos que beiravam à ficção, já que o conteúdo histórico era censurado pelos militares. Isso ajudou a expandir o imaginário dos moradores. A perna chegou a inspirar de marchinhas de carnaval a música de Chico Science, de quem o diretor é fã. Outro subterfúgio utilizado pela população para a dura realidade do período é o próprio cinema. Seu Alexandre, sogro de Marcelo, é projetista em um cinema; e o filme “Tubarão”, de Steven Spielberg, é a nova obsessão dos frequentadores, especialmente, após a notícia do misterioso caso de uma perna encontrada dentro de um tubarão. Caso fictício no filme que dialoga com o problema ambiental de ataque de tubarões nas praias de Recife.
Kleber Mendonça começou a frequentar o cinema com seu tio materno no mesmo ano da trama para esquecer a doença da mãe. Nas cenas com carros datados e coloridos, conhecemos uma Recife que deu lugar a acontecimentos locais, como a Praça Chora Menino; e o Ginásio Pernambucano, um colégio de 200 anos que já teve Ariano Suassuna como estudante; e outros tantos lugares que não existem mais, como o Banco de Sangue Hemato, que era um cinema na década de 1940. Marcelo, Dona Sebastiana e Hans não são os únicos revisitando memórias. Os componentes do diretor de arte e da figurinista, Rita Azevedo, recriam, além das lembranças, a estética da época. O figurino é obra de muita pesquisa em colunas sociais, mas de um trabalho íntimo, onde foram fotografados álbuns antigos de 40 famílias de Recife. Rita usou, inclusive, referências visuais de fotografias dos próprios pais. Wagner Moura apresenta um Marcelo ligeiramente taciturno aos poucos; através de emoções conflitantes e das recordações da família. E o ator o faz muito bem, além de sensíveis, os dois são inestimáveis confrontadores. Mas Marcelo e outros personagens deixam uma página em branco. E essa página pode ser preenchida por quem assistir a partir do dia 6 de novembro.
