O samhain é um festival celta para as boas colheitas e cultuar os mortos. As pessoas acreditavam que, nesse dia, o limite entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos desaparecia: os entes queridos vagariam pela terra nesse dia, além de outros seres sobrenaturais, como espíritos malignos. As pessoas iluminavam as vilas com fogueiras e usavam máscaras para se esconder dos espíritos, buscando boas vibrações para o próximo plantio. A Igreja Católica se apropriou desse festival, dizendo que não era para os mortos comuns, mas sim para os santos da igreja. O papa Gregório III mudou o dia de todos os santos para o dia 1 de novembro, que anteriormente era comemorado em maio, e essa medida serviu como combate ao samhain e as práticas pagãs da época, originando, no fim, o que hoje conhecemos como Halloween.
O Halloween chegou aos EUA pela migração intensa dos irlandeses para as ilhas britânicas, atualizando-se constantemente com o passar dos séculos. No inicio, os celtas iam às portas das casas pedindo contribuições para o festival e animais para sacrifício; mais tarde, os cristãos aderiram essa prática (crianças) para cantar canções e fazer orações pelos fieis que estavam no purgatório, recebendo bolo em troca (“soul cake”). Com o passar dos séculos, as crianças começaram a ir às casas pedindo doces ou travessuras, o que deu origem a famosa frase que ouvimos até hoje.
Porém, no Brasil foi criada uma comemoração para o mesmo dia que é comemorado o Halloween: O Dia do Saci.
Mas por que o Dia do Saci? O Dia do Saci é uma tentativa de reconstruir o mito para a sociedade e começar uma valorização nacional. O pesquisador Anderson Awas diz que devemos incomodar mesmo as tradições estrangeiras, por isso a comemoração é junto com o Halloween. Existe uma importância de criar essa valorização nacional para que não haja uma maior valorização da cultura estrangeira. Com a chegada do Halloween, com as fantasias, doces e travessuras, festas e brincadeira, a cultura nacional foi sendo deixada um pouco de lado para a adesão da cultura estrangeira, por isso há uma necessidade tão grande em criar uma comemoração para algum elemento nacional.
O Saci Pererê é um ser travesso que prega peças, dá nós em crinas de cavalos, pede fumo para as pessoas, aparece dentro dos rodamoinhos que levam tudo por onde passam. Dizem que você consegue pegar o saci jogando uma peneira no rodamoinho ou um rosário benzido. Quem consegue pegar a carapuça do saci, consegue controlar ele, até ele te enganar e conseguir pegar de volta. Ele é um ser criado no Paraguai- Paraná, região habitada pelos tupis- guaranis, e trazido para o Brasil pelos indígenas.
Existem diversas representações do Saci pelo mundo: o saci que conhecemos, e que é comum no sul do país, não é o mesmo no Brasil inteiro. Quando vai subindo para o norte e o nordeste, em alguns lugares, ele é uma ave, em que seu canto desnorteia os viajantes da floresta, confundindo-se facilmente com a matinta- pereira, não sendo uniforme em seu reconhecimento: com o curupira, confunde-se em sua forma humana. Ele possui o dom de desnortear o viajante, fazendo ele se perder nas florestas, além dos pés para trás e a cabeleira vermelha, que é representada pelo gorro; com a caipora, seria o assobio, proteger os favoritos, pedir fumo e montar os cavalos.
Agora, quem é o maior escritor do menino travesso na Literatura? Ele mesmo: Monteiro Lobato. O autor resolveu criar o inquérito a partir de relatos no jornal Estadinho sobre a experiência pessoal das pessoas com o Saci pererê. Ele foi o primeiro a se interessar plenamente pelo saci e trazê-lo de forma mais descontraída, e não vista como algo ruim ou um demônio, mas um ser que prega peças para se divertir e irritar apenas. Ele se preocupava com o desraizamento da cultura folclórica, sugerindo a implementação da mesma em cursos de artes. Escreveu este inquérito também para recuperar visões alegres e divertidas do Saci, tentando melhorar a carnificina que acontecia na Europa em relação à Grande Guerra. Muitos relatos apresentavam medo e as características principais do saci, como fazer nós nas crinas dos cavalos.

Após as matérias no jornal, colocou o menino de fato na Literatura: O Sítio do Pica-Pau Amarelo, sua obra de maior sucesso. Saci se tornou um dos personagens mais queridos da obra, pregando peças na Tia Anastácia e no Tio Barnabé, brincando com o Pedrinho e sendo o assistente da malvada Cuca. Suas pegadinhas e brincadeiras tiraram muitas risadas, de crianças até adultos. O sucesso foi tão grande que a série de livros virou uma série televisiva e pudemos criar uma conexão ainda maior com as travessuras. Essas histórias atravessaram gerações, formaram e ainda formam o conceito de literatura em muitas crianças.


No final, não precisa ser sobre um ou outro: podemos aproveitar pos dois, cada uma a sua maneira, com seus costumes, suas festas e suas brincadeiras. A valorização da cultura nacional e a implementação de uma cultura estrangeira trazem o que deveria ser do entendimento de todos: nenhuma cultura é única, todas possuem um pedacinho daquela, um pouquinho dessa, e assim são formadas as histórias que nos formam. Uma mistura, assim como nós somos uma mistura.
O nacional e o estrangeiro possuem magia cada um a sua maneira, só nos resta aproveitá-la.
