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Crítica: Blue Moon (2025)

A comédia romântica azul de Richard Linklater Entre as grandes atrações da 49ª Mostra de São Paulo, Blue Moon se destaca como uma comédia romântica intrigante que sai um pouco da fórmula habitual do gênero. Dirigido por Richard Linklater, o...

Sumário

A comédia romântica azul de Richard Linklater

Entre as grandes atrações da 49ª Mostra de São Paulo, Blue Moon se destaca como uma comédia romântica intrigante que sai um pouco da fórmula habitual do gênero. Dirigido por Richard Linklater, o filme oferece uma visão mais introspectiva e melancólica do que estamos acostumados, explorando os bastidores de um dos momentos mais dolorosos da história do teatro americano. Contudo, a verdadeira questão é: será que Blue Moon consegue equilibrar sua nostalgia com uma narrativa cativante ou acaba se perdendo na melancolia? Vamos descobrir.

Sinopse — O retrato de Lorenz Hart

O filme se passa na noite de 31 de março de 1943, durante a estreia do musical Oklahoma!, o primeiro fruto da parceria entre Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II uma dupla que transformaria para sempre a história do teatro musical americano. Enquanto o espetáculo brilha nos palcos, um homem assiste ao nascimento desse novo sucesso com amargura. Ele é Lorenz Hart, o antigo parceiro criativo de Rodgers, que agora se encontra sozinho, embriagado e ressentido no bar Sardi, lendário ponto de encontro da Broadway.

Lá, entre copos de uísque e conversas com um atencioso barman, Hart revive o passado, as mágoas e as perdas que o afastaram da glória e o levaram à autodestruição. Blue Moon acompanha essa longa noite, misturando ficção e realidade, música e memória, com a melancolia de quem sabe que o tempo já passou.

Ethan Hawke: a alma quebrada de Lorenz Hart

Interpretado com profundidade e sensibilidade por Ethan Hawke, Lorenz Hart é o centro de gravidade emocional do filme. O ator, parceiro recorrente de Linklater, entrega uma das performances mais densas de sua carreira um homem talentoso, espirituoso, mas completamente devastado pela solidão e pelo vício. Hawke faz de Hart uma figura tragicômica: sarcástico, inteligente e ao mesmo tempo vulnerável, um artista que vê o próprio brilho se apagar enquanto o mundo celebra sem ele.

O roteiro Glenn Karplow mergulha na mente de Hart sem romantizá-lo. O personagem é cínico, autodestrutivo e muitas vezes cruel, especialmente ao falar sobre Rodgers e o sucesso de Oklahoma! que ele acredita ter sido “roubado” de si. No entanto, é impossível não sentir empatia por ele, e grande parte disso se deve à entrega total de Hawke, que transforma cada gesto e cada olhar em um retrato doloroso de um homem consumido pelo ressentimento.

Andrew Scott a ruptura criativa de uma era

Se Blue Moon tem um coração partido, esse coração se divide entre dois homens. Andrew Scott, interpretando Richard Rodgers, é o contraponto de Hart: racional, pragmático e distante. Sua química com Hawke é o eixo dramático do filme, especialmente nas cenas de confronto e lembrança. Rodgers é mostrado como alguém que ama a arte, mas que também entende o peso do sucesso e, por isso, é incapaz de carregar um parceiro tão volátil quanto Hart.

Bobby Canavale, como o barman que ouve as confissões de Hart, funciona quase como um narrador grego moderno. Ele é o espelho silencioso das angústias do protagonista, servindo de fio condutor entre passado e presente. Suas conversas com Hart, repletas de ironia e ternura, são o que dá ritmo e profundidade à narrativa.

A estética azul: a cor da solidão

Linklater e o diretor de fotografia Shane F. Kelly fazem da cor azul a linguagem visual do filme. Cada quadro, cada reflexo de luz e sombra é banhado por tons de azul símbolo da melancolia, do jazz e da própria “lua azul” que dá nome à obra. Essa paleta cria uma atmosfera quase onírica, como se estivéssemos assistindo a um sonho fragmentado entre o glamour da Broadway e a decadência da boemia nova-iorquina.

Entre o amor e o fracasso: o retrato de um artista esquecido

Um dos grandes méritos de Blue Moon é como ele transforma um episódio específico da história do teatro em algo universal. A frustração de Lorenz Hart com o sucesso do antigo parceiro é, na verdade, um espelho da dor de todo artista que se vê deixado para trás por um mundo que segue em frente. Linklater não trata o personagem como um mártir, mas como um homem real alguém que teve tudo e perdeu, alguém que amou e se destruiu ao tentar se manter relevante.

A relação de Hart com Rodgers é retratada com camadas de complexidade emocional. Há amor, inveja, admiração e, acima de tudo, uma sensação de traição mútua. Em uma das cenas mais fortes, Hart confessa que “tudo o que compôs foi por amor a ele”, e é nesse ponto que o filme revela seu verdadeiro tema: não é apenas sobre música ou teatro, mas sobre conexões humanas e o que acontece quando elas se rompem.

Um retrato amargo, mas necessário

Apesar de sua beleza visual e de seu elenco afiado, Blue Moon não é um filme fácil. Ele exige paciência e atenção, e em alguns momentos a narrativa se arrasta, refletindo o próprio estado de torpor do protagonista. Linklater parece mais interessado em observar o tempo, os silêncios e as falhas de comunicação do que em seguir uma estrutura convencional. Isso pode frustrar quem espera uma trama mais envolvente ou leve, especialmente considerando o rótulo de “comédia romântica” que o filme recebeu em alguns materiais promocionais algo que ele, de fato, não é.

Há momentos em que o ritmo vacila, e personagens secundários como os de Bobby Cannavale e Margaret Qualley acabam subaproveitados, funcionando mais como ecos do estado mental de Hart do que como figuras completas. Ainda assim, suas presenças ajudam a compor a tapeçaria emocional da história.

Conclusão

Blue Moon é uma obra de atmosfera e introspecção, uma carta de amor e de luto ao teatro musical americano e aos letristas esquecidos pela história. Richard Linklater entrega um filme elegante, triste e belamente imperfeito, que funciona mais como uma elegia do que como um drama biográfico tradicional.

É um filme sobre a perda do brilho, sobre o que acontece quando o sucesso se vai e resta apenas a lembrança do que um dia foi. Para os amantes da Broadway e da era dourada da música americana, Blue Moon é uma viagem nostálgica e tocante. Para o público em geral, é uma experiência lenta, mas recompensadora, que fala sobre os altos e baixos da criação artística com honestidade e dor

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Marina Bueno
Sobre o autor Marina Bueno

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