Da sinfônica expressionista à obsessão gótica
Pouco mais de 100 anos separam as duas versões de Nosferatu que destrinchamos a
seguir. Em sua primeira face de 1922, de F.W. Murnau, temos uma criatura de poder
sombrio, cuja força é retratada de forma inovadora com efeitos especiais, sendo o primeiro
filme a tornar visual as características de um vampiro. Conta com uma orquestra para nos
imergir no terror, no medo da praga e do desconhecido, já que estamos falando de cinema
mudo. Nele, acompanhamos a figura do corretor imobiliário Hutter (Gustav v. Wangenheim)
na sua travessia da Alemanha para Transilvânia, com o objetivo de vender uma casa
situada na cidade de Wisborg, para Orlok (Max Schreck), que após constatar que não está
diante de um humano se vê preso em seu castelo, enquanto o conde se dirige para seu
novo lar munido de caixões cheios de terra profana.
O desejo é retratado pela vontade de consumo do sangue por parte do vampiro e os
espectadores são contextualizados aos poucos sobre sua mitologia por meio de passagens
do livro “Dos Vampiros, Terríveis Fantasmas, Magia e os Sete Pecados Mortais”. Com esses
documentos descobrimos que a forma de acabar com a sua existência é a oferenda
voluntária do sangue de uma donzela que o fará perder a noção de tempo, ficando
vulnerável ao amanhecer, coincidentemente quem cumpre esse papel é a esposa de Hutter,
Ellen (Greta Schröder). Valendo ressaltar o quanto são prestigiosas as nuances referências
de outras passagens da época, como o nome do barco que leva Orlok até a cidade ser
Empusa, um dos espectros de Hécate da mitologia grega, que nos remete fortemente às
características mortíferas do referido.
Entrando novamente no campo do desejo e saindo do terror expressionista teatral,
chegamos a Nosferatu de 2024, de Robert Eggers, em que o anseio avassalador não é
mais uma particularidade do conde. Agora temos o medo e a repulsa da esposa Ellen
(Lily-Rose Depp), aquela que irá sacrificar o seu sangue, não somente por querer ser
salvadora, mas por desejar saciar suas vontades sexuais reprimidas. Na nova face, temos
uma versão extendida da obra original. Onde deve-se destacar também que a ambição do
assassino (Bill Skarsgård) não é somente pelo sangue e as suas atitudes são resultado de
um pacto realizado muito antes do desenrolar dos acontecimentos burocráticos da venda de
um imóvel e onde o Hutter (Nicholas Hoult) é muito mais inseguro. Aqui a loucura é sentida
pelo espectador, as sombras causam a sensação de delírio que apenas é mencionada no
primeiro. A submissão da figura feminina no primogênito é muito mais natural do que as
possibilidades das posições da mulher ocupadas no segundo.
Eggers não tenta superar Murnau, entretanto traz uma nova contextualização com uma rica
caracterização de época e fotografia que emula o preto e branco, novas situações
conflitantes e desenvolvimento dos personagens, de uma forma que merecem avaliações
individuais. Portanto, ao assistir ambas as obras, podemos desfrutar de uma história
contada por perspectivas tão semelhantes e distintas ao mesmo tempo, que nos fazem
mergulhar em um revolucionário horror vampírico, apesar do seu século de distância.
