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Ganhamos o Oscar. E agora?

Fernanda Torres e Walter Salles no Oscar

A vitória de “Ainda Estou Aqui” é um marco. Mas não é só uma vitória para o filme, é também para a Cultura. Confira o que muda para o cenário nacional agora que temos uma estatueta da premiação mais famosa...

Sumário

A vitória de “Ainda Estou Aqui” é um marco. Mas não é só uma vitória para o filme, é também para a Cultura. Confira o que muda para o cenário nacional agora que temos uma estatueta da premiação mais famosa do mundo

Como uma brasileira entrevistada disse em um vídeo que viralizou, quando a Fernanda Torres subiu no palco do Globo de Ouro (e agora Walter no Oscar, levando a estatueta de Melhor Filme Internacional), não era só ela. Era o nosso Brasil. Era o nosso cinema. Era a história da advogada que participou da Assembleia Nacional Constituinte para a defesa de terras indígenas. Era a história de milhares de famílias sem respostas. Era a luz sobre os acontecimentos da época, dos quais muita gente se sentia distanciada e alheia. Era o nosso Natal com piscina de manhã, rabanada e blusa de alcinha.

O filme que virou blockbuster nos Estados Unidos, com demanda de salas de cinema cada vez maior, que representou a dor vivida por toda a América Latina (e, de certa forma, de todo país que passou por algum tipo de colonização ou invasão). A vitória de Ainda Estou Aqui é muito mais do que uma conquista individual para Fernanda, Walter, Marcelo, Selton e o restante da equipe.

No âmbito histórico, o filme reacendeu a busca por justiça por todas as vítimas da ditadura, e também a necessidade de punir os envolvidos. O filme influenciou o ressurgimento da discussão sobre a Lei da Anistia e pode destravar ações judiciais para a responsabilização de crimes da ditadura.

No âmbito cultural, a vitória já garantiu mudanças no cenário brasileiro. E a estatueta nem chegou no país ainda. Se você ainda está em dúvida sobre o impacto do filme, ou se você acha que a comoção em breve passará e no longo prazo, não sentiremos diferença, confira a lista abaixo. Vamos sorrir.

  1. Eduardo Paes anuncia que a casa em que Ainda Estou aqui foi filmado será a Casa do Cinema Brasileiro.

Se você acompanhou um pouco da temporada de Ainda Estou Aqui, pode ter ouvido falar na casa que foi cenário para o filme. A família Paiva cresceu na residência, e uma moça que relatou ter morado nela anos depois viralizou há alguns meses falando sobre o quanto a casa foi importante para ela.

Hoje (03/03), o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou que a Prefeitura irá desapropiar/comprar o imóvel, e transformar e o espaço em uma memória permanente da Eunice Paiva e sua família, da democracia e também das nossas Fernandas (Torres e Montenegro), que deram vida à Eunice. A Casa do Cinema será a nova sede do Rio Film Comission, que estimulará mais produções do cinema brasileiro e premiações internacionais.

2. Recordes para o cinema nacional

De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Regulação da Ancine, mais de 5 milhões de pessoas assistiram a Ainda Estou Aqui nos cinemas e o filme arrecadou R$ 104,7 milhões em renda, se consolidando como a terceira maior bilheteria nacional desde 2018. E a quinta maior bilheteria da nacional da história. 3.509 salas de cinema ativas. No exterior, só nos Estados Unidos a produção angariou pouco mais de 700 salas de cinema e aproximadamente aproximadamente R$ 159 milhões. Durante a “Semana do cinema”, em fevereiro, os números cresceram 174%, sendo a segunda melhor semana de exibição do filme desde sua estreia. E provando que o povo brasileiro anseia por Cultura, e que a queda na ida aos cinemas não é, definitivamente, falta de apreço pela arte e sim falta de acesso.

Com isso, o Governo Federal anunciou o “Tela Brasil“, serviço de streaming gratuito que reunirá exclusivamente obras nacionais, trazendo reconhecimento para obras que não chegam a todas as salas de cinemas e aproximando a sétima de arte de regiões que não possuem salas de cinema.

Nesta semana, o Festival de Cannes anunciou que, em sua edição deste ano, o Brasil será o País de Honra. A iniciativa é do “Marché du Film” (Mercado de Filmes do Festival), que celebra uma nação distinta por ano, reconhecendo suas contribuições para a indústria cinematográfica mundial. O Brasil será o quarto país a receber esse título.

3. Criação da Lei Ainda Estou Aqui

O deputado Carlos Veras (PT-PE) protocolou na sexta-feira (28), um projeto que propõe a criação da Lei “Ainda Estou Aqui”. O projeto prevê medidas de preservação dos cinemas de rua. A proposta origina o Cadastro Nacional de Cinemas Tradicionais para ampliar o acesso ao cinema nacional e garantir que esses espaços não sejam deixados de lado na distribuição de filmes com grandes lançamentos — que, hoje, acabam restritos às grandes redes.

Os cinemas de rua estão quase “em extinção” há anos, devido principalmente à especulação imobiliária e a dominação dos shopping centers na distribuição de audiovisual.

4. Fortalecimento de coproduções

A professora de Cinema e Audiovisual da ESPM-SP Cyntia Calhado, que é pesquisadora das obras de Walter Salles, afirmou ao Zero Hora que a corrida do filme no Oscar também favorece parcerias estrangeiras para a produção e distribuição nacional. Ainda Estou Aqui, por exemplo, é uma coprodução com a França.

Além disso, a Lei da Cota de Tela foi reestabelecida recentemente para garantir o acesso ao cinema nacional, impedindo que salas de cinema exibam apenas blockbusters internacionais e, assim, fortalecendo o cinema brasileiro no circuito comercial. Afinal, precisamos fazer com que o cinema nacional venda. E histórias para contar não nos faltam. Mas precisamos garantir a sustentabilidade da indústria, precisamos garantir o trabalho dos profissionais de toda a indústria.

Tem que ser possível viver de arte no Brasil porque precisamos da arte para viver.

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Keith Ives
Sobre o autor Keith Ives

Uma enciclopédia humana de comédias românticas. Tenho gosto musical duvidoso e gosto de fingir que estou em um talk show enquanto lavo a louça. Quando não estou assistindo a filmes, estou fazendo miniaturas deles.

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